terça-feira, 3 de junho de 2014

A separação da vaca influencia negativamente o estado emocional do bezerro

O grupo de pesquisa do Laboratório de Etologia Aplicada e Bem-Estar Animal (Leta), do Departamento de Zootecnia e Desenvolvimento Rural da UFSC, publicou, em parceria com pesquisadores da University of British Columbia, o primeiro estudo que mostra que a separação da vaca influencia negativamente o estado emocional do bezerro. O trabalho, publicado recentemente na revista PLOS ONE (http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0098429), fez parte da dissertação de Rolnei Ruã Darós, orientada pela professora Maria José Hötzel e defendida em abril deste ano no Programa de Pós-Graduação em Agroecossistemas.
Nos sistemas de produção animal, os bezerros são desmamados e separados da mãe em várias idades. Diversos estudos, inclusive o do LETA, já haviam mostrado que esse procedimento, que faz parte da rotina de criação animal, desencadeia respostas comportamentais e fisiológicas indicando estresse fisiológico e emocional nos bezerros e vacas – este estudo confirmou que aqueles apresentam uma resposta emocional negativa após perderem a mãe.
A metodologia utilizada para testar essa hipótese, inicialmente desenvolvida e validada por psicólogos para uso em humanos, é chamada de viés cognitivo. Um exemplo tipicamente apresentado para explicá-lo é o do copo com água até exatamente sua metade: indivíduos otimistas, ou em estados emocionais positivos, tendem a interpretá-lo como meio cheio; indivíduos pessimistas, ou em estados emocionais negativos, a interpretá-lo como meio vazio.
Neste experimento, bezerros leiteiros de poucos dias de idade foram treinados a acionar uma tela de computador com o focinho; depois, eles aprenderam a associar a tela de cor branca à chegada de leite, que podiam beber dirigindo-se à mamadeira. Quando a tela vermelha aparecia, o bezerro precisava ficar parado, pois, se procurasse o leite, era punido por um minuto com a proibição de acionar a tela. Após considerados treinados, algumas vezes a tela aparecia em cor-de-rosa, ou seja, a informação era ambígua. Antes da separação da mãe, os bezerros respondiam às telas rosa como positivas em 72% das vezes. No dia seguinte após a retirada da mãe do seu ambiente de criação, essa frequência diminuiu, isto é, os bezerros passaram a interpretar a cor ambígua da tela como a cor que eles tinham associado a um evento negativo – essa resposta pessimista persistiu por mais de 48 horas. Além disso, o mesmo resultado foi obtido ao testar esses bezerros com o mesmo procedimento antes e um dia após serem submetidos à cauterização do botão cornual com um ferro quente – prática utilizada para evitar o crescimento dos chifres, que causa intensa dor e desconforto por mais de 48 horas. Este trabalho é o primeiro a mostrar que as dores física e da separação induzem bezerros a estados emocionais negativos.
Estudos como este, que ajudam a reconhecer estados emocionais em animais, reforçam a obrigação que os seres humanos têm de prevenir o sofrimento dos animais utilizados para o seu benefício.
Confira o artigo publicado: Daros et al 2014
Claudio Borrelli / Revisor de Textos da Agecom / Diretoria-Geral de Comunicação/ UFSC

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O metano e a dor das vacas


Os ruminantes são responsáveis pelo efeito estufa? Esta é uma questão que deve ser analisada com cuidado. Segundo diferentes organizações internacionais, entre elas a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), a pecuária responde por 15 a 28% da emissão mundial de metano, um dos gases que mais contribuem para o fenômeno. 

Há duas formas de se ver este número: a primeira é que, sim, os ruminantes emitem até 28% do metano no planeta! A segunda, todavia, nos indica que 72 a 85% da produção não é emitida por eles. Ou seja, é resultado de outras fontes comuns do gás, como a cultura de arroz, a queima de combustíveis fósseis, esgotos, aterros e também manguezais. 

Para minimizar o problema, de toda forma, pesquisadores argentinos do Instituto Nacional de Investigação Agrícola (INTA) desenvolveram uma tecnologia específica para o gado, que evita a liberação do metano no ar e ainda o aproveita para gerar energia para carros. Uma mochila é acoplada às costas do animal e conectada ao seu rúmen ("estômago"), através de uma fístula e um tubo, que recolhe o gás. 

A ideia é ótima: imagine quanta energia seria gerada pelos animais em uma fazenda?


O problema é que a fístula ruminal – uma abertura cirúrgica permanente feita na lateral do corpo das vacas – causa dor crônica a esses mamíferos, por toda a vida. O uso contínuo da mochila também gera lesões de atrito e desconforto (devido ao suor). E aí vem a pergunta: é justo causar dor a um animal para diminuir a emissão de gases e produzir energia?

Algumas pesquisas científicas indicam soluções não invasivas para a diminuição da emissão de metano pelo gado e mesmo para o aproveitamento deste gás, geralmente eructado (como um "arroto") por ruminantes. É sabido, por exemplo, que a qualidade da dieta influencia em sua produção: quanto melhor a alimentação, menor a emissão de gás. Isso pode ser obtido com melhoria das pastagens, integração lavoura-pecuária ou mesmo a utilização de suplementos energéticos. 

Outra alternativa – e talvez uma das melhores – é a criação em sistemas silvipastoris, que combinam árvores, gado e pastos. Em áreas recém-plantadas, a qualidade da pastagem é melhor e ainda permite fixar muito carbono no solo, o que compensa parte das emissões de gases do efeito estufa. Além disso, em alguns sistemas de criação (como os de produção leiteira) é possível recolher os dejetos das vacas e utilizarbiodigestores para gerar energia. 

Portanto, sim, a emissão de metano por ruminantes existe e é um problema. Mas existem alternativas para minimizá-la, sem ser à custa do sofrimento dos animais.

Por Paola Rueda, zootecnista 
Supervisora de bem-estar animal da WSPA Brasil

Fonte: http://www.wspabrasil.org/latestnews/2014/o-metano-e-a-dor-das-vacas.aspx

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Plataforma eletrônica simula funcionamento de ecossistemas para aferir benefícios e impactos

Batizada de The Madingley Model, sistema permite simular perdas e ganhos ambientais antes que determinada ação seja tomada.


A Microsoft e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), após três anos de estudo e pesquisa, criaram o General Ecosystem Model (GEM), uma plataforma digital que simula qualquer tipo de vida na Terra, tanto no ambiente aquático, quanto no terrestre. Ela também ficou conhecida como The Madingley Model.
O modelo é o primeiro a cobrir todos os processos biológicos mais fundamentais que formam o ciclo de vida e o comportamento de todos os milhões e milhões de organismos do planeta. Ele leva em conta fotossíntese, alimentação, metabolismo, reprodução, dispersão, e morte, para, desse modo, capturar como tais processos influenciam na estrutura e no funcionamento dos ecossistemas inteiros.
A tecnologia criada em código aberto possibilita aos cientistas interagirem com todos os organismos de um dado ecossistema, observando quais seriam as alterações climáticas caso uma singela abelha desaparecesse do local. O objetivo da plataforma pode ser resumido em algumas perguntas mencionadas no site oficial: como as interações entre plantas e animais transforma os ecossistemas que vemos ao nosso redor? Como esses ecossistemas variam em todo o mundo? O que vai acontecer a esses ecossistemas no futuro em resposta a várias pressões humanas? Como podemos reduzir ou reverter qualquer dano já feito?
O nome da plataforma se deve ao local em que os desenvolvedores primeiro se reuniram, em uma pequena vila britânica. O modelo atual é capaz de reproduzir as características dos ecossistemas que vemos no mundo real, em pequena e grande escala, além de fazer previsões testáveis sobre como interações ecológicas entre organismos individuais moldam o mundo natural que nos rodeia.
O Madingley oferece aos governantes uma ferramenta para explorar os potenciais efeitos de suas decisões sobre o meio ambiente, em um computador, antes que as decisões sejam lançadas no mundo real. Com ele, é possível ver os efeitos das ações humanas (tais como a perda de habitat ou a introdução de espécies invasoras no ecossistema), além dos serviços que o ecossistema pode oferecer (polinização, fonte de água potável, etc.).
“Madingley é uma nova tecnologia que oferece à comunidade científica e aos líderes mundiais uma ferramenta vital para prever como formas de desenvolvimento não sustentável podem afetar o mundo natural”, explicou o diretor executivo do Pnuma, Achim Steiner.
Para conhecer mais sobre a ferramenta, acesse seu site oficial (em inglês). Lá, também é possível se aventurar e baixar o programa para testá-lo.
fonte: http://www.ecycle.com.br/component/content/article/37-tecnologia-a-favor/2300-plataforma-eletronica-simula-funcionamento-de-ecossistemas-para-aferir-beneficios-e-impactos.html