terça-feira, 15 de julho de 2014

Respostas Fisiológicas e Comportamentais de Bovinos a Diferentes Ofertas de Sombra

RESUMO


Avaliou-se o efeito de diferentes disponibilidades de sombreamento na resposta fisiológica e comportamental dos bovinos em pastagens. Foram utilizados 12 vacas em lactação num quadrado-latino (4x4), com os seguintes tratamentos: sem sombra, sombra única, sombra em bosque e sombra dispersa. As variáveis foram: tempos pastando, ruminando e outros comportamentos; tempo na sombra e deitada; produção de leite; consumo de água; temperatura retal e freqüência respiratória. Os tratamentos bosque e dispersa não apresentaram diferenças entre si e neles as vacas apresentaram maiores tempos pastando, ruminando, deitadas e na sombra, assim como, maior consumo de água e menores temperaturas retais e freqüências respiratórias. Sem sombra as vacas apresentaram maiores tempos de outros comportamentos, menor consumo de água e maior diferença na freqüência respiratória. Com sombra única a ruminação foi maior que sem sombra, se igualando aos demais tratamentos e as vacas apresentaram valores intermediários, entre os tratamentos sem sombra e os demais, no tempo de outros comportamentos, no consumo de água e na diferença da freqüência respiratória. Conclui-se então que a ausência de sombra na pastagem provoca estresse calórico; a sombra insuficiente ajuda a diminuir o estresse a um nível intermediário e a distribuição espacial da sombra não apresenta diferença significativa.

Autores:  Luiz Carlos Britto Ferreira, Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho, Maria José Hotzel, Andréa Amaral Alves, Alexandre de Oliveira Barcellos

Artigo Publicado em Cadernos de Agroecologia - ABA, Associação Brasileira de Agroecologia

V. 9, N. 2 (2014): II ENCONTRO PAN-AMERICANO SOBRE MANEJO AGROECOLÓGICO DE PASTAGENS 07 A 09 DE ABRIL DE 2014 PELOTAS – RS, BRASIL


para acessar o texto completo - link:  

http://www.aba-agroecologia.org.br/revistas/index.php/cad/article/view/15843



terça-feira, 3 de junho de 2014

A separação da vaca influencia negativamente o estado emocional do bezerro

O grupo de pesquisa do Laboratório de Etologia Aplicada e Bem-Estar Animal (Leta), do Departamento de Zootecnia e Desenvolvimento Rural da UFSC, publicou, em parceria com pesquisadores da University of British Columbia, o primeiro estudo que mostra que a separação da vaca influencia negativamente o estado emocional do bezerro. O trabalho, publicado recentemente na revista PLOS ONE (http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0098429), fez parte da dissertação de Rolnei Ruã Darós, orientada pela professora Maria José Hötzel e defendida em abril deste ano no Programa de Pós-Graduação em Agroecossistemas.
Nos sistemas de produção animal, os bezerros são desmamados e separados da mãe em várias idades. Diversos estudos, inclusive o do LETA, já haviam mostrado que esse procedimento, que faz parte da rotina de criação animal, desencadeia respostas comportamentais e fisiológicas indicando estresse fisiológico e emocional nos bezerros e vacas – este estudo confirmou que aqueles apresentam uma resposta emocional negativa após perderem a mãe.
A metodologia utilizada para testar essa hipótese, inicialmente desenvolvida e validada por psicólogos para uso em humanos, é chamada de viés cognitivo. Um exemplo tipicamente apresentado para explicá-lo é o do copo com água até exatamente sua metade: indivíduos otimistas, ou em estados emocionais positivos, tendem a interpretá-lo como meio cheio; indivíduos pessimistas, ou em estados emocionais negativos, a interpretá-lo como meio vazio.
Neste experimento, bezerros leiteiros de poucos dias de idade foram treinados a acionar uma tela de computador com o focinho; depois, eles aprenderam a associar a tela de cor branca à chegada de leite, que podiam beber dirigindo-se à mamadeira. Quando a tela vermelha aparecia, o bezerro precisava ficar parado, pois, se procurasse o leite, era punido por um minuto com a proibição de acionar a tela. Após considerados treinados, algumas vezes a tela aparecia em cor-de-rosa, ou seja, a informação era ambígua. Antes da separação da mãe, os bezerros respondiam às telas rosa como positivas em 72% das vezes. No dia seguinte após a retirada da mãe do seu ambiente de criação, essa frequência diminuiu, isto é, os bezerros passaram a interpretar a cor ambígua da tela como a cor que eles tinham associado a um evento negativo – essa resposta pessimista persistiu por mais de 48 horas. Além disso, o mesmo resultado foi obtido ao testar esses bezerros com o mesmo procedimento antes e um dia após serem submetidos à cauterização do botão cornual com um ferro quente – prática utilizada para evitar o crescimento dos chifres, que causa intensa dor e desconforto por mais de 48 horas. Este trabalho é o primeiro a mostrar que as dores física e da separação induzem bezerros a estados emocionais negativos.
Estudos como este, que ajudam a reconhecer estados emocionais em animais, reforçam a obrigação que os seres humanos têm de prevenir o sofrimento dos animais utilizados para o seu benefício.
Confira o artigo publicado: Daros et al 2014
Claudio Borrelli / Revisor de Textos da Agecom / Diretoria-Geral de Comunicação/ UFSC

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O metano e a dor das vacas


Os ruminantes são responsáveis pelo efeito estufa? Esta é uma questão que deve ser analisada com cuidado. Segundo diferentes organizações internacionais, entre elas a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), a pecuária responde por 15 a 28% da emissão mundial de metano, um dos gases que mais contribuem para o fenômeno. 

Há duas formas de se ver este número: a primeira é que, sim, os ruminantes emitem até 28% do metano no planeta! A segunda, todavia, nos indica que 72 a 85% da produção não é emitida por eles. Ou seja, é resultado de outras fontes comuns do gás, como a cultura de arroz, a queima de combustíveis fósseis, esgotos, aterros e também manguezais. 

Para minimizar o problema, de toda forma, pesquisadores argentinos do Instituto Nacional de Investigação Agrícola (INTA) desenvolveram uma tecnologia específica para o gado, que evita a liberação do metano no ar e ainda o aproveita para gerar energia para carros. Uma mochila é acoplada às costas do animal e conectada ao seu rúmen ("estômago"), através de uma fístula e um tubo, que recolhe o gás. 

A ideia é ótima: imagine quanta energia seria gerada pelos animais em uma fazenda?


O problema é que a fístula ruminal – uma abertura cirúrgica permanente feita na lateral do corpo das vacas – causa dor crônica a esses mamíferos, por toda a vida. O uso contínuo da mochila também gera lesões de atrito e desconforto (devido ao suor). E aí vem a pergunta: é justo causar dor a um animal para diminuir a emissão de gases e produzir energia?

Algumas pesquisas científicas indicam soluções não invasivas para a diminuição da emissão de metano pelo gado e mesmo para o aproveitamento deste gás, geralmente eructado (como um "arroto") por ruminantes. É sabido, por exemplo, que a qualidade da dieta influencia em sua produção: quanto melhor a alimentação, menor a emissão de gás. Isso pode ser obtido com melhoria das pastagens, integração lavoura-pecuária ou mesmo a utilização de suplementos energéticos. 

Outra alternativa – e talvez uma das melhores – é a criação em sistemas silvipastoris, que combinam árvores, gado e pastos. Em áreas recém-plantadas, a qualidade da pastagem é melhor e ainda permite fixar muito carbono no solo, o que compensa parte das emissões de gases do efeito estufa. Além disso, em alguns sistemas de criação (como os de produção leiteira) é possível recolher os dejetos das vacas e utilizarbiodigestores para gerar energia. 

Portanto, sim, a emissão de metano por ruminantes existe e é um problema. Mas existem alternativas para minimizá-la, sem ser à custa do sofrimento dos animais.

Por Paola Rueda, zootecnista 
Supervisora de bem-estar animal da WSPA Brasil

Fonte: http://www.wspabrasil.org/latestnews/2014/o-metano-e-a-dor-das-vacas.aspx